30 setembro 22
Eu não tenho a ninguém.
Não digo isso num sentimento de posse, digo isso no sentido de que não tenho com quem contar, não tenho ninguém a quem confiar, não tenho ninguém para quem eu possa me sentir segura, não tenho o luxo de me abrir pra outra pessoa.
Me sinto deslocada de todos desde pequena. Me lembro uma vez que eu estava no nono ano, todos estavam indo para as salas, eu resolvi não subir e ficar no pátio, um dos meus professores foi lá e se sentou do meu lado perguntando: ” o que houve? ” eu disse a ele que eu me sentia sozinha e que nenhuma daquelas pessoas da minha sala me considerava amiga ( elas eram pessoas muito ruins e qualquer coisa que eu pudesse fazer iria ser tudo em vão iria ser igual a nada )eu me sentia super deslocada ali naquele lugar cheio de ódio e pessoas que eram extremamente superficiais. Meu professor disse que isso não iria ser para sempre e que na faculdade eu encontraria pessoas parecidas comigo e que eu me sentiria parte de alguma coisa.
Agora percebo que ele estava errado, nem conhecendo todas as pessoas do mundo eu vou fazer parte de alguma coisa, nem estudando todas as coisas do mundo vou me sentir inteligente, nem amando todas as pessoas do mundo eu vou me sentir amada.
Eu sou só apenas uma solitária sem futuro.
Eu preciso dos outros mas ninguém precisa de mim, minha mãe se sairia melhor sem a mim na vida dela, eu só estou sendo um peso.
Eu fico o tempo todo na cama não fazendo absolutamente nada, não lavo nem uma louça, e eu não me sinto bem nem para levantar mais, estou muito mal aqui nesta situação e ela não tem culpa disso mas o que eu gostaria de fazer o tempo todo é de fugir, de perto de todos e de tudo, mas não tenho como fazer isso, porém eu sinto que preciso disso, preciso fugir.
Muitos achariam que estou reclamando da minha vida de boca cheia “Júlia você tem um teto, você tem comida na mesa, você tem roupas para vestir e tem um monte de livros que pode ler, você faz um ótimo curso e que pode vir a ter uma carreira.”
Primeiro, eu tenho uma casa, uma casa que nem posso chamar de lar, aqui não tem carinho, aqui tem apenas dor. A comida está começando a perder o sabor e toda vez que tenho compulsão alimentar por stress ou tédio eu engordo e piora minha visão sobre mim mesma, começo a ter ódio de comer e de me olhar no espelho. Todas as roupas que tenho, muitas eu comprei pensando numa pessoa que eu nunca vou ser, não me sinto essa pessoa para usá-las e sinto que nunca vou ser, acabo não me sentindo confortável usando nada que uso. Todos os livros que tenho não tenho coragem de ler, me sinto burra e incapaz de compreender eles, quando converso com qualquer um fico percebendo o quão sem conteúdo eu sou, eu não leio, e não tenho identidade alguma, não tenho nada, sou muito desinteressante. Conversei as últimas vezes com o Andryo e me senti uma pessoa abaixo do nível dele, e me sinto constantemente abaixo do nível da minha mãe e do resto das pessoas. No curso eu comecei a me decepcionar com as pessoas, me sentir deslocada, me sentir vazia, me sinto alguém no audiovisual sem futuro, me sinto infeliz. Eu não vou conseguir ter uma carreira em qualquer coisa, eu não consigo nem viver uma vida normal. Eu sou um problema.
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